DO INCÊNDIO EM SÃO PAULO SURGEM AS PESSOAS QUE SÃO INVISÍVEIS

Não é cômodo, mas é a hora de enxergar quem são estas pessoas. 
Não só as que estavam morando naquele edifício, mas entender quem são as pessoas que moram na rua, que ocupam casas e prédios abandonados ou moram embaixo de viadutos e dormem na rua.
Não se trata apenas de uma questão humanitária e sim de um fato sociológico que afeta a vida de cada cidadão e permanece ignorado.
Sim afeta. De alguma forma afeta. 
Eles normalmente não são atendidos pelo poder público, não têm emprego, eles acabam não gerando mão de obra convencional, não pagam impostos, não estão listados de forma clara no senso demográfico, nem frequentam escolas ou cursos de capacitação, mas eles existem.
E a cada ano a população de moradores de rua aumenta e circula perambulando no meio da população de forma invisível. 
E como sabemos... ignorar não faz nada deixar de existir. 
Esse é um problema de gestão pública em todas as esferas (municipal, estadual e federal) que não é resolvido e infla a cada dia. Esse problema também é seu e meu.
O incêndio desse prédio apenas trouxe de forma clara e pra dentro da casa das pessoas, via noticiários e reportagens, o tamanho e existência desse buraco social no qual eles vivem e nós estamos caindo.
Me desculpem, mas não há sociedade saudável com uma questão gigantesca dessas sendo apenas jogada pra baixo do tapete!
Achar que dar esmola, dinheiro, roupa, comida e ir em paz para casa por ter cumprido sua parte lamentavelmente não é suficiente.
Nem todo mundo que vive em situação de rua ou em cortiços é mendigo, mas todos precisam se recolocar na vida.
Uso o prédio do incêndio como referência pela relevância que a mídia está dando nesse momento de comoção, mas exemplos como este vão ao infinito.
Eu morei em São Paulo e sei do que falo. E tem outra... isso acontece em todas as cidades. Temos que encarar isso de frente de uma vez por todas.
Lá naquele prédio morava empregada doméstica que trabalha, pedreiro desempregado, pessoas com dependência química, crianças, mulheres grávidas, idoso sem perspectiva de trabalho etc... veja, isso é uma micro sociedade envolta no caos.
Um fato meio complicado de se enfrentar é que enquanto isso não acontece com alguém da família, as pessoas seguem ignorando toda a falta de dignidade humana praticada. 
Eu já tive medo de falar com com pessoas necessitadas que me abordaram na rua. Eu não sabia se era mendigo, se era assaltante ou uma pessoa que sofreu um revés na vida e tinha ido morar na rua. Isso reforça mais ainda o fato de que passou da hora o governo assumir sua falta com a responsabilidade por esta situação toda.
A solução para esse vácuo social é super complexa. Demanda um esforço multidisciplinar e muito investimento por parte do poder público, mas como acabamos de ver.... é urgente.
Tem gente precisando de tratamento médico, todos precisam de moradia, tem gente que necessita de desintoxicação, tem criança precisando ir para a escola, quase todos procuram por emprego e direitos básicos como alimentação. higiene, vestuário e tantos outros.
E a verdade é que não se soluciona isso de forma rápida e nem muito menos padronizada porque cada pessoa reage de forma diferente da outra e cada um foi parar na rua por um motivo diferente. Não tem como usar um método para resolver todos. 
Nós precisamos exigir que os governos reconheçam isso e se ponham a resolver de forma contundente e compromissada todas as questões que envolvem os marginalizados da sociedade.
Sabemos que desanima exigir alguma coisa de um governo que vem caindo aos pedaços a cada escândalo de corrupção, roubo do dinheiro público e prisões, mas temos como desistir?

A gente está acampada aqui porque a gente vai continuar, a gente vai lutar, a gente quer uma moradia, a gente não quer ir para o albergue”, diz a vendedora Ana Paula Araújo."

"Vim pra rua faz 4 meses, eu era auxiliar de enfermagem e uso drogas." Respondeu Fabiano, 41 anos, sem mostrar o rosto.

"Não tenho mais força para trabalhar de pedreiro nem estudo para conseguir nada melhor." Declarou idoso que não se identificou.




                                             (imagens Veja/ Abril)

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